Filósofo ourobranquense escreve sobre momento de acirramento político

Gilliard Souto, filósofo enviou o seguinte artigo:

A razão e a emoção sempre foram postas em lados antagônicos ao longo da história da humanidade. Em todos os tipos de relações presentes no meio social, esses dois fatores sempre foram tomados como parâmetros na avaliação e no julgamento dos atos e ações praticadas por seus integrantes. Os gregos, a mais de 25 séculos, já apontavam os perigos das ações praticadas por indivíduos levando em consideração apenas os impulsos emocionais, sem fazer um exercício racional e críticos diante dos problemas que se apresentavam.  É sobre essa relação entre esses dois conceitos que eu gostaria de falar sobre a situação política em todo o Brasil, e particularmente, em nossa querida Ouro Branco.

O voto afetivo é uma característica do modo como se exerce a política em nosso país, e se reflete de modo mais gritante nos municípios menores. O voto afetivo se caracteriza por um voto sem reflexão baseado apenas na crença e na imaginação que determinadas pessoas são superiores a outras no modo de fazer política e de administrar a coisa pública. O fato para essas crenças existam se fundamentam, principalmente, nas relações de afetividade, de amizade, de companheirismo, de cumplicidade e até mesmo na personificação de que um determinado indivíduo representa a salvação para todos os males de uma comunidade. A falta de um elemento crítico e racional na hora de escolher em quem depositará o seu voto pode acarretar consequências graves. Devemos colocar de lado as relações emotivas, os laços afetivos e nos concentrarmos em questões maiores, como, as propostas dos candidatos, se existe a possibilidade real de efetuar tais propostas, quais as estratégias de trabalho, as prioridades de seu mandato, quem serão os seus assessores (se serão técnicos ou apenas jogada política em busca de apoio), qual a fundamentação teórica-política de tais indivíduos uma vez que a administração da coisa pública e a promoção de melhorias da sociedade deve contemplar a tosos os cidadão, independentemente de suas escolhas políticas-partidárias), qual a sua história na militâncias política e sua idoneidade moral. Todas essas questões e muitas outras devem fazer parte dessa reflexão na hora confiar o nosso voto a aluem. A luta para superar os entraves entre a razão e a emoção é um pouco árdua, na maioria das vezes nos fechamos para novas ideias, para costumes, crendices e julgamos fazer sempre o correto. Um belo exemplo disso na literatura universal é a famosa batalha se Dom Quixote contra os moinhos de vento, que ele afirmava serem gigantes, apesar das advertências feitas por seu escudeiro, Sancho Pança. Movido por ideais apaixonados, o homem só enxerga o que quer ver.

Pois bem, o voto afetivo, a desproporcionalidade entre razão e emoção, está transformando nossa pequena e confortável comunidade num verdadeiro campo de batalha. Onde o cenário que vê, são famílias em conflitos com outras, amigos se desentendendo, ameaças a integridade física e moral, um ambiente tenso e nada saudável, dominado por radicalismo impressionante e inimaginável. Alguém poderia ousar a dizer que isso tudo faz parte da democracia. Eu acredito que se isso é democracia, Clístenes certamente se arrependera de sua criação. Fica uma pergunta no ar: Como uma sociedade, uma comunidade, que tem como características as laços familiares e fraternos pode desenvolver tais tipos de comportamentos? Tais modos de relações? Eu afirmo que todos esses fenômenos giram em torno de dois conceitos: O PODER e a ALTERIDADE.

O Poder, esse conceito abstrato, que ouvimos falar diariamente, mas que não compremos seu real significado. É a busca pelo poder que transforma homens em lobos, famílias unidas em clãs rivais, amigos de infância e inimigos mortais. A busca pelo poder político, financeiro, pela autoridade, pelo reconhecimento social, pela comodidade, tudo isso explica a situação desenfreada em nossa comunidade. O pior de tudo é que esse sentimento de busca pelo poder não estar resumido e reservado a instituição e a partidos políticos em conflito, ele estar se alastrando para todos os setores da sociedade, comprometendo o desenvolvimento das relações de amizade, de respeito e de socialização.

Essa busca pelo poder, gera um novo fator: a falta de Alteridade. Alteridade consiste na “natureza ou condição do que é do outro, do que é distinto.” Esse conceito toma como base a premissa de que todo homem social interage e interdepende de outros homens. Ora, afirmação é verdadeira, se dependemos do outro para podermos nos firmarmos como seres humanos e sociais, é necessário que exista uma rede de relações e de comportamentos que permitam essa interdependência, como o respeito e a tolerância em relação a opinião do outra, a aceitação de ideias contrárias a sua, a aceitação do discurso e da liberdade de explicitar ser pensamento. Como dizia Voltaire “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las.” Portanto aprender a escutar o outro, a respeitar suas ideias, seus posicionamentos, suas escolhas, interagir criativamente com ele, requer que aprendamos a escutar a nós mesmos e a interagir com os nossos pensamentos de modo a podermos nos surpreender com nossas próprias ideias. Tudo isso exige honestidade e alteridade.

Portanto, podemos concluir que o voto afetivo, a busca pelo poder, a falta de alteridade, a falta de razão, o excesso de emoção, entre outros fatores, contribuem para a lamentável situação que se encontram, não apenas nossa cidade, mas toda a nação, quando estamos em períodos eleitorais. Enquanto esse gigantesco incêndio de intolerância persiste, cria-se uma verdadeira cortina de fumaça sobre a realidade. Existem ainda aqueles (que não são poucos) que procuram explicações para tais atos e procedimentos, jogando a culpa em determinados indivíduos, candidatos A e B, fantasiando sobre a honestidade de um e nefasta desonestidade de outros, sobre as maravilhas que uns podem fazer e sobre a maleficência que outros podem gerar, sobra a santidade de uns e a maldição de outros. Enfim recorrem a fatos particulares para explicar um fenômeno de natureza um pouco mais generalizada, e se esquecem de que são responsáveis por tais atitudes, tanto quanto, aqueles que fazem da política um jogo, e um jogo arriscado, onde ninguém quer perder, exceto a polução. Então meus amigos antes de brigar, de discutir, de desmerecer seu amigo, seu vizinho, seu parente, seu adversário, se lembrem de que tudo isso é show e a plateia somos nós cidadãos. Lembremo-nos que os grupos políticos que hoje estão travando uma guerra colossal, a pouco tempo faziam parte de um sólido e amistoso grupo, e que amanha poderão retornar as velhas alianças, sem nenhum tipo de ressentimento ou rancor, porque afinal de contas a busca pelo dinheiro e pelo poder vale mais que qualquer tipo de sentimento ou valor moral. Como diz Jorge Aragão, em seu samba, “Dinheiro na mão é vendaval.” E a busca por esse vendaval, pode acarretar em nossas vidas, terríveis furacões. Mesmo assim é necessário mantermos o espírito crítico, apesar das adversidades. Como Dizia Nietzsche “E aqueles que dançavam, foram tidos como insanos, por aqueles que não podiam escutar a música.” 

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